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INÊS MARTO

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Circo de pedra

Há dentro de mim ruínas invisíveis. Ossos do ofício de me desmoronar como um trago para essa sede maior. Coliseus devolutos do circo de feras de pedra que me dançam na cabeça.
Saltas o muro. Não te afligem os destroços. Caminhas no meu abandono como palma da tua mão. Apanhas do chão as pedras caídas do meu trilho. As que se fizeram cicatrizes insolúveis.
Olhas-te ao espelho partido que sobreviveu à erosão. Toca-lo. Revês-te. Fundes-te. Mostras-me as estátuas do teu circo. Ambas cobertas do pó e do musgo de que se faz a solidão.
Na tua alquimia de ser humana, fazes das minhas pedras perdidas bolas de sabão entre os teus dedos. Agarras-me. Envolves-me. Sem dizeres mais, jogamos de caras no mesmo tabuleiro de contrastes.
Ensinas-me o xadrez de estar viva. Descobres-me o mundo por dentro dos olhos, descobres-me a vida por dentro da pele, descobres-me o perfume por dentro da alma.
Passeias na minha distopia como uma primavera sem relógios. Vais-me tacteando as peças.
A tua distopia é uma praia rochosa. A minha um antro de anseios caído aos céus. Sento-me escondida entre as tuas rochas. Observo-te o mar. Absorvo-te. Aprendo-te. Temos a pedra em comum.
Ao sabor do nosso vento, há um jardim junto ao mar onde se plantam as estátuas da nossa fraqueza. Erguer um trono ao vulnerável, torná-lo fogo a céu aberto: esse é o nosso acto de amor.
No nosso circo de pedra, só esperamos uma coisa: verdade. Já tenho onde cair viva.

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