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INÊS MARTO

INÊS MARTO

Os poetas não... 

Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. Porque é que me excita o clitóris criativo a neblina mental dos barbitúricos que estou à espera de tomar? Os poetas não deviam ter horários. Porque é que a boca não me sabe sempre a laranjas? Porque é que me pesam as pálpebras? Os poetas não deviam ter sono. Os poetas não deviam ter fome. Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. 

Porque é que o corpo me chama permanentemente às rotinas de existir? Os poetas não deviam ter ouvidos. Os poetas não deviam ter relógios. Porque é que não tenho a língua feita de canela e grãos de café? 

Os poetas não deviam ter obrigações. Os poetas não deviam ter moralidade. Os poetas não deviam ter tendinites. 

Porque é que não tenho as tuas mãos pintadas a detalhe na cabeça como queria ter no colo? 

Os poetas não deviam ter anemias. Os poetas não deviam ter medo. Os poetas não deviam ter vergonha na cara. Os poetas não deviam ter roupa no corpo. 

Porque é que não sei a que sabe a tua saliva quando escorre no meu tórax exausto enquanto abandono o corpo no sofá enrugado e deixo de existir, cativo do meu próprio precipício identitário? 

Os poetas não deviam ter género. Os poetas não deviam ter amarras. Os poetas não deviam ter bom senso. Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. 

Porque é que não sei a que sabe o rasto da minha pele refém do verniz das tuas unhas? Porque é que não sei como soam as tuas costelas contra a parede falsa do meu peito? Porque é que não sei de cor o som que deixas escapar dos lábios fracos enquanto te passo a barba e os beijos no pescoço? 

Os poetas não deviam ter pudores. Os poetas não deviam ter latitude. Os poetas não deviam ter tamanho. 

Porque é que não sei como soa a minha voz nos teus pesadelos? Os poetas não deviam ser unívocos. Os poetas não deviam ser tridimensionais.

Porque é que não sou amorfo? Porque é que não me evaporo? Porque é que não me deixas dormir? 

Os poetas não deviam sucumbir ao cansaço. Os poetas não deviam ter tona de água. Os poetas não deviam ter salvação. Os poetas não deviam ter atenuantes. Os poetas não deviam horários ... Os poetas são o pleonasmo do próprio ser. Os poetas não deviam ter definição. 

Afinal

Escondia uma espiral de asfixias com a desculpa de ler um livro dos tantos esquecidos na prateleira de não ler. Mas não deixas. Assaltas-me as horas mortas e cortas-me as ondas salgadas do pensar. Não pedes licença, conheces-me a sede. E ficas de mansinho comigo deitada, serena, no bunker do meu desacreditar, onde não deixo entrar ninguém, leve como até hoje apenas tu. Assustadoramente alguém.Pegas-me pelas pontas dos dedos e fazes com que me dispa de repressões. Mergulhamos na minha incredibilidade, castelo de cartas, menos mal por estares comigo. Mas só porque me ensinas a parar de olhar mil vezes antes de me atirar. Não se voa todos os dias. És uma sorte.Procurei anos a fio olhos onde acender simbioses e alienar-me na companhia muda de quem está finalmente nu. Encontrei-te. Penso em fugir antes que doa. Anda - peço-te na voz sumida de quem rasga cimento com flores selvagens - Faz-me acreditar. Mostra que as minhas utopias lilases de amar por bem podem ser loucas a par então.Anda - cala-se a boca a medo, olho-te trémula - na esperança encontrada que me leias o presente pergunto de respiração cortada se é assim de verdade, se me posso dar sem rédeas, se não há mesmo escalas no querer nutrir-te, porque não se mede o que aconchega o peito, e o perder-nos no tempo pode simplesmente saber bem.Anda - sussurro com olhos tristes - Desfaz os nós que me fizeram. Põe a tua mão na minha e não a deixes. Diz-me que não há purgatório em ser caleidoscópio de afectos por condição.Anda. Senta-te ao meu lado. Deixa-me olhar-te nos olhos até não sentir choques na nuca. Abraça-me devagar. Deita a cabeça no meu ombro. Cai em mim. Não te recomponhas. Atira janela fora o tempo e a postura. Fica nos meus braços. Ouve-me o coração, porque sim, sem ser preciso motivo.Anda. Faz comigo desenhos de fumo suspenso na ebulição de ser humano. Rasga-me as consequências de ser na vida como nos versos. Despe-me dos medos com os dedos delicados. Diz devagarinho que amar não tem fundo nem contornos. Anda. Deixa o mundo e habita-me. Beijemos as cicatrizes mutuamente, sem ter nome nem morada. Apenas. Só. Modo de vida por suficiência de justificação. Recíprocas. Porque nos elevamos, livres de julgamento, e essa ode à transposição do ser é quanto baste para nos sentarmos à mesma mesa e bebermos do mesmo copo, sem que telhados de vidro se façam cair.Anda. Liberaliza-me. Porque podemos, afinal?

Ânsia

​Por querer viver não vivo 

Nesta saudade que trago

Como anoitecer cativo

Na demora onde naufrago 
Por querer sentir não sinto 

Coisa nenhuma nem nada 

Fogo lento de absinto 

No romper da madrugada 
Quero amanhecer e tardo 

De tanta vontade ter

Pois na força com que ardo

Torno-me cinza ao viver
E que me caiam as flores

À sombra de um candeeiro 

Onde à noite choro as dores 

De querer um momento inteiro 
Quero ser asas, afundo

Quero pulsar e esmoreço

Na ânsia de florir mundo 

Nasço, morro e enlouqueço

A minha alma

A minha alma é cinzenta,
É ausente de medida,
É uma boca sedenta
De provar as cores da vida.

A minha alma é cinzenta,
Não tem porta nem destino,
Vagueia em ruas sem nome,
Ela é um gato ladino.

A minha alma é cinzenta,
Não tem rumo nem tem nada,
Não é de tempo nenhum,
Ela é desvitalizada.

A minha alma é cinzenta,
E não se encaixa no mundo,
A minha alma é perdida,
É um sonho vagabundo.

A minha alma é cinzenta,
Não é de hoje ou amanhã,
Tampouco o ontem lhe cabe,
Ela é terra incerta, vã.

A minha alma é cinzenta,
É uma amorfa energia,
Não cabe em caixas fechadas,
Tem asas e é vadia.

A minha alma é cinzenta,
Voa sem olhar para trás
E já não pede licença,
É da cor que a vida a faz.

Silhueta amor

Sempre que te vejo,
Ó meu fogo baço,
Que arde neste peito
Batendo a compasso,

Peço-te um beijo
De olhos enlaçados
Nos teus, e que ao longe,
Te olham calados

Fogo sorrateiro
Na maré da sorte
Tímido ponteiro
Ou estrela do Norte,

Silhueta rasa
De sonhos rainha,
À luz que incendeia
Esta paixão minha,

Silhueta longe,
Onde ninguém sabe
Que te olho calada,
E que sem mais nada
Me deixas saudade.

Silhueta sonho,
Nunca acontecida
Sem nunca chegares,
Não temo a partida.

Ó meu fogo baço,
Quero antes sonhar-te,
Estrela do Norte,
Ter-te perto em versos,
Sem temer a sorte

De não me quereres,
Silhueta vida.
Canto-te assim, sem saberes,
Beijos dados a rigor,
Corpos mudos e saudade,
E esta alma metade
Tua, silhueta amor.

 

Chão de vidro

Caminhava em chão de vidro
Com barbatanas nos pés,
Ia ao sabor das marés
Sem saber qual era o norte

Tinha por ponteiro a sorte,
Astrolábio descontente
Mapa para aquela mente
Que albergava tanta gente.

E então, com guelras por coração
Respirava o sal da mágoa
Como um barco na água
A remar contra a corrente,

Caleidoscópio indulgente
Que se apaga de repente
Feito chuva intermitente,
Vórtice do verbo ser,
Chove em segundos cortados
De mundos entrelaçados
Que ardem lentos, sem se ver.

Meia fénix, meia louca
Meia grito, meia rouca
Num precipício de fumo,
Numa cascata sem rumo,
A despir a pele oca,
Como quem descasca a roupa.

E esse chão de vidro baço
Tornava-lhe o passo laço,
Para naufragar ao vento
Em linhas de desalento

Que traçam trilhos perdidos
Lembram desejos esquecidos
De ser capitã da areia,

Essa alma de sereia,
Com sabor a drama doce
E travo de amor ardente,
Das tábuas, como se fosse,
No palco, rio ascendente,
Sonho de noite de estreia.

Rosa negra

Primavera da alvorada,
Quando te sonho acordada,
Crescem-me orquídeas no peito

Primavera dos amores,
Dos sonhos de tantas cores,
Nesta esperança onde me deito

Primavera de mãos quentes,
Dos meus delírios ardentes
Nesta febre apaixonada

Desflora-me nos teus beijos,
Primavera dos desejos,
Pele de estrelas perfumada

Primavera desse olhar
Que abraça sem pensar
O inverno que há em mim

Amarra-me o coração
Primavera da paixão,
Rosa negra de cetim.

 

Nuas trovoadas

Dá-me os teus braços sem medo
No enleio de um segredo,
Da nossa cama perdida.
Abracemo-nos à toa
Sejamos barco sem proa,
Navegando a dois a vida.

Dá-me os teus lábios frutados,
Sabor a doce castigo
Nos nossos sonhos cansados,
Quentes corpos naufragados
Com o nosso amor por abrigo.

Teus olhos mornas agulhas,
Ao perfurarem meu peito,
Pintam-nos duas faúlhas
Do fogo desta paixão
Consumado em combustão,
Quando contigo me deito.

Tua pele mapa-mistério
Com laivos de madrugada
Tela do meu sonho etéreo
Cor de alma desancorada.

Dá-me as tuas mãos de amante,
Astrolábios de loucura
Com cheiro a estrela madura
Num céu de eterno desejo.
Planta em mim, palpitante,
A semente do teu beijo
Que brote versos sem fim
E vem ser comigo, apenas,
Nuas trovoadas serenas,
Deixa só que te ame assim.

Contradição

Seja amor, mas sem se ver,
Seja um rio sem correr,
Uma torre sem ruir,
Orgasmo sem se sentir,
Seja íbis sem voar
Numa noite sem luar.

Seja paixão que não cala
Dentro de um peito que exala
Versos a jorrar sem fim,
Num abraço de cetim
Duas vidas amarradas
Bafos de pequenos nadas
Deixados soltos ao frio,
Derradeiro desvario
Este amar sem ter medida
Tal uma cama despida
Finda a aventura táctil:
Brincar a ser-se volátil
Nessa outra dimensão
De carne e respiração
E dois corpos ancorados
Marinheiros naufragados
Num imenso mar de amores
Pintado a todas as cores.

Seja sonho que não arde
Seja esperança que não voa,
Seja fogueira sem vela
Este amor de caravela,
E asas sem ter pavio,
Um desejo sem navio
Seja vida sem caixão,
E paraíso sem chão,
Amanhã sem sepultura,
Seja um nunca que perdura
Eterna contradição,
Incógnita equação
De um teorema impossível,
Eterno que desvanece
E adeus que permanece.

Seja tudo, mas que fique,
Não se resolva, nem se explique,
Nem se escreva em verso vão,
Cúmulo de vórtex confuso,
Buraco negro difuso
Num pequeno coração.

Sonho e sal

Chegaste sem avisar
Como uma onda do mar,
Matéria de sonho e sal,
E ancoraste este amor
Feito sede do licor
Da tua essência fatal.

Minha existência pesada
Perdeu o norte e a estrada,
Já não posso naufragar,
Pois, num quente desvario,
Entreguei o meu navio
À sorte de te encontrar.

E ao navegar em mar bravo,
Digno de um fado cravo,
Poço sem fundo nem chão,
Descobri um novo cais,
Infinitos areais
Da praia desta paixão.

E o soar das guitarras,
Saudade em som sem amarras,
Chorado caleidoscópio,
Está para o fado, assim
Como te fizeste em mim
Sangue, quimeras e ópio.