Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

INÊS MARTO

INÊS MARTO

LIVROS À VENDA:

Folha em branco

Quis-te falar ao ouvido, calei-me.
Fiz da cabeça folha em branco onde dactilografei a dedos lentos o discurso inteiro, em letras marcadas a baixo relevo, de um negro molhado quase a escorrer, no papel visto demasiado de perto. E lá aprisionei um sem-número de páginas amontoadas do que te queria dizer, sem que não mais deixassem de ser prata a casa do meu velho sótão de poeira, onde dança há muito tempo a imagem pintada de uma versão mais bonita de ti que, ao contrário e como prometeste sem cumprir, não vai embora.
Quis tocar-te nos ombros, fechei as mãos nelas mesmas.
O que aconteceu de nosso já não me lembro. Permanece difuso entre o fumo demorado de cigarros não acontecidos que não fiz mais do que sonhar em fumar ao teu lado. Pintei-te no meu sótão os lábios só de contorno vermelho que desenhei com as próprias mãos a tremer, por ter-te de olhos fechados, de cara e corpo entregue a mim.
Quis beijar-te o pescoço e a boca, escondi a fome e a cara e as lágrimas dentro dos olhos cerrados à força.
O que foi do jardim que me construíste ao peito, não saberei nunca. Fizeste com que o esquecesse com um cheque-mate de baralho deitado abaixo em como seria impossível a perdura do que negavas existir. As nossas flores murcharam. Escrevi-te despedidas deitadas fora e construí dentro de mim um cemitério de sonhos e de partes minhas todo teu.
Quis prender-te na ponta das mãos os cabelos com que desenhar romances numa tela de lençóis, matei aos poucos esse ópio, eternizei-te mentalmente no que queria que tivéssemos sido.
Se foi mais que sonhos, já não me lembro.
Quis amar-te desmedida, fui-me embora.

Vértice de um epitáfio (parte I)

Madrugada.
Deitada a pele alba em ondulações respiratórias sobre lençóis manchados quentes.Insónia de suspensões de nylon preto contra o vermelho de lábios anónimos carnudos brilhantes.
Flashes curtos. Oxigénio. Um xilofone de costelas sob as pontas frias dos dedos com unhas quebradas frágeis a proteger pulmões fracos em respirações ansiosas. Uma gaiola de pássaros-hormonas loucos o corpo, de aves desnorteadas forradas a negro e de franjas, de sabor metalizado velho, de dopamina a conta-gotas.Tecto de espirais de luzes amareladas na travessia de um abat-jour rasgado. Silhuetas de bailarinas incógnitas e pegadas de sangue em azulejo intermitentes.Mente divergente no fio de fumo ascendente a passos de vidro como um equilibrista no vértice do seu próprio epitáfio.
Reflexos fluorescentes de candeeiros solitários na janela. Sede de tabaco na garganta. Sensação de língua morna a deslizar para baixo pelos degraus das próprias vértebras.
Retalhos calcificados de memórias a monte postas na balança a gestos largos. Findasse hoje o fio de fumo para esse vértice do epitáfio, pouco pó sobraria da erosão calcária das memórias.
Esvaía-se o resto num evaporar de sobras de tempo a atingir metas alheias, a deambular no inútil, a percorrer ruas erradas, das ruas erradas que não levam ao caminho certo, que afinal não levam a caminho nenhum, das cujos passos não ensinam, das que só servem para se circunscrever em interesses e objectivos e expectativas exteriores, das que só servem para encaixar em moldes ocos.
Por contrário, um débito de se olhar, de se explorar, de se florescer, de se vulcanizar em erupções re-identitárias, de se reconstruir, de se descobrir o próprio ponto de ruptura e tocá-lo vezes múltiplas em testes auto-destrutivos de desafio à resiliência, de se amar, de se cheirar, de se lamber, de vestir roupas que ficam mal, de se odiar, de se afundar, de mergulhar na própria pele, de se fundir com o chão de fundos de amargura aleatórios, de deixar marcas de batons de cores pouco usuais em beatas amarrotadas num alcatrão qualquer à chuva, de observar copos de champanhe agarrados com postura por unhas pintadas, de decorar vozes vibrantes ao ouvido, de se convencer do próprio reflexo, de habitar o próprio corpo, de se sentir o próprio eu sem esforço, de refutar a idade, de não fazer coisa nenhuma, de escrever mais e melhor, de pensar mais e maior, de cair cumulativamente.
Uma subnutrição de referências de cinema, de filmes franceses, de pianistas, de bebedeiras, de desmaios, de amores mal paridos, de renascimentos mal amados, de máscaras desestruturadas, de sorrisos falhados, de silêncios desconfortáveis, de olhos nos olhos, de pés em sangue arrastando-se findo um tango de ave ferida na carnificina da noite de quem está vivo porque quer estar e se atira a jaulas de leões.
Findasse o fio de fumo e um ciclo esvaído de fim nem princípio de falta e excesso de insónias, de passos inconscientes para o vértice daquele tal epitáfio, ficara por gritar.Madrugada.

"Egoverso"

"Então sofre." disseram-lhe com ombros de algodão. A derradeira liberalização e ruptura do politicamente correcto puxar-se para cima, apanhar os cacos das utopias previsivelmente falhadas, e seguir em frente.
"E escreve.", continuaram, com a boca a saber a beijos quentes de pôr ao peito como emplastros de curar dores existenciais.
A metamorfose que já tantos dias faz força como espinhos de cactos a querer furar a pele não tardou a regressar. A não obrigação ao quotidianismo sintético da felicidade injectada desamarra qualquer núcleo com sede.
E, subitamente, o cheiro a plástico-borracha e a éter como as máscaras de oxigénio transparentes que deformam a luz difusa do tecto das ambulâncias anunciava o peito aberto, deixado ao abandono pelas costelas friáveis que se desfaziam ao som de falésias a desmoronar.
Fumo roxo invadia a pele e penetrava-a. Patas de insectos pretos caminhavam-lhe por dentro, eram os carrascos da dor de alma. Teias de aranha faziam-se erguer por entre os fios de cabelo, suspensos no âmbar gelatinoso e incolor de quem se perde sem tempo. A existência superava o corpo, por não lhe caber a tristeza no oceano dos órgãos.
Via-se em fotogramas suspensos no espaço, em movimentos fragmentados, mais lentos que o mundo, multiplicadas as mãos em transparências como acetatos que se dissolviam lentamente, sobrepostos.
O corpo pesado. O complexo labirinto de artérias dissecado à catártica ritualidade de tornar as agulhas fluorescentes que lhe tatuam desgostos em qualquer coisa de tangível. No celofane mecânico do interior das pálpebras, filmes caleidoscópio de manchas azuis e verdes e negras, num ruído visual de televisão avariada.
Mentalmente uma espiral de queda quebrada, um sufoco sem chão, a velocidade estonteante de cair fora de si continuamente sem fundo. Mentalmente uma velocidade onde não cabe o mundo, uma ausência de foco único e de rasto, uma hipersensibilidade de galáxias e consciência e pó de giz.
"Então sofre." e fizeram-se bacantes. Invocou-se o granito de campas alheias, morreu-se em vida sem fazer força, escreveu-se como quem navega sem tocar no leme. Arderam as células da carne, deitaram flocos de cinzas ao ar como confetis a celebrar o direito à condição liberalizada de existir sem olhar para os lados.
Sobraram os ossos rachados cor de ferrugem. Sobrou a embriaguez auto-gerada que torna suportável e até apetecível a sobrevivência, nesse universo como um negativo de uma fotografia antiga de memória amarga, ligeiramente corroída pelo ácido de um estômago que cede ao desamparado estilo de vida de ser assim.
"Então sofre." e fez-se mundo, porque o mundo desapareceu. E construiu-se dos pesadelos velhos a placenta onde ficar. E encontrou-se nela o leito inebriado de um "egoverso" de multiplicidades dimensionais.
"Então sofre." e tirou-se da vida espaço-tempo para um ritualizado último suspiro alucinogénio com visão de túnel repetitivo. Criou-se um barco-fuga dormente num acesso mental como o puxar de um cigarro. Deu-se um nó ao cordão umbilical para que não se perdesse dos sentidos a placenta de pesadelos.
Saiu-se do próprio corpo e observou-se com um ávido salivar de sabor a ferro a sua encantadora deterioração transcendental.
"Então sofre." e encontrou-se no espectáculo da própria amargura a beleza evolutiva da cicatrização de uma essência a céu aberto. Deixou-se um fio de nylon-cordão umbilical, atado  aos dedos.
O "egoverso"-placenta fez-se balão de hélio com promessas de ficar.

 

Numb-mente

Conservasse a boca o sabor a café, nas horas neutras. Encravasse a tecla para apagar o que escrevia. Não tivesse caminho senão o de continuar em frente. Perpétuo, contínuo, imparável. Soassem os pianos que tinha na cabeça sempre cá fora.Não tivesse poesia. Não ficasse à luz do ecrã pela inércia de ir acender o candeeiro, a ver o chão cinzento de cimento e o jardim deserto pela janela. Não ficasse de robe e de pijama e de óculos sempre ligeiramente sujos pela inércia de os limpar outra vez.Memorizasse eu os detalhes das pessoas e dos passos delas, a cada vez que penso "isto era bom para escrever". Saíssem-me com tanta fervura crónicas sobre tudo e mais alguma coisa como me saem sempre sobre o mesmo amor impossível.Tivesse sempre na cabeça a voz do Al Berto a dizer O Medo, não perdesse o rasto ao fio de prumo das ideias que me consomem partes demasiado grandes do cérebro, a pensar nos espectáculos que quero fazer. Soasse a minha voz ao arranhar do Comfortably Numb em vinil.Quando era criança também tive febre(s, muitas), também sentia as mãos tal e qual dois balões, nunca passou. Não tivesse a latência semi-manifestada, semi-latente, este atordoar de presente.Tenho as mãos como balões e os olhos magnéticos a puxar para dentro do crânio porque a boca não me sabe a café. Não me lembro de tudo o que me queria lembrar. Ainda ontem tinha passado à saída do supermercado por uma mulher interessante, sobre quem cogitares arriscados, no mínimo, davam mais um texto sobre alguma coisa, menos um devaneio de amor daqueles que nem querem dizer, e pior, nem servem, para nada. Esqueci-me do que pensei. Outra vez. Não me ensurdecessem as horas e não perdesse o ponteiro à voz da cabeça, maldita.Escureceu demais. Quem me dera ir de comboio sem avisar, sem saber para onde, sair porque sim, não ter datas, não ter prazos nem relógio. Escrever todos os dias como se a minha vida dependesse disso. Olhar para quem passasse sem medo do cruzar dos olhos. Ser homem e usar suspensórios vermelhos só porque sim. Vou acender a luz.Desenhasse eu círculos de sangue em chão preto no meu próprio desatino, lembrasse-me de cabelos ruivos contra-luz e olhos dourados, não visse caras de pedra e ossos a rasgar a carne em flashes de alucinações.Não tivesse dentro do tempo um tempo próprio sem tempo nenhum. Escrevesse todos os dias como se a minha vida dependesse disso. Não tivesse dores de estômago infundadas. Não tivesse pesadelos, não me custasse dormir e tanto ou mais acordar. Não tivesse imaginária a casa encostada ao mar, e do chão ao tecto livros encastrados nas paredes e cheiro a pó e madeira a estalar.Não vivesse dentro e fora simultânea mas incompativelmente, na embriaguez da multiplicidade de ser tanta coisa sem querer ser nada, como se isso não pesasse, como se não fosse convulsivo, como se não quisesse às vezes ser só um autómato e pensar em lavar a loiça, como se não me fosse doer o peito e implodir as veias pelo vácuo do inexistir extra-pele.Não tivesse as mãos como dois balões, não fosse Comfortably Numb por definição, soubesse-me a boca a café. Escrevesse todos os dias como se a minha vida dependesse disso.

Vitrúvios imperfeitos

Pulsava o pequeno coração de vidro, arvoreando-se em artérias transparentes, ramificadas pelo corpo como arbustos de cristal, guardiães de um cemitério interior.
E lá dentro chovia, escorregando as gotas pelas côncavas curvas na sua própria atmosfera. Chovia-lhe no peito como um mundo próprio alheio, alienado, cheio de pequenos pássaros pretos, mais pares de óculos tímidos e chapéus de nunca usar.
Sob madeira roída sem janelas da sua pele jaziam esperanças. E entre os dedos de papel tecia amores impossíveis.
Passeava-se no pequeno sótão de sempre. O mesmo da luz ténue, do chão riscado de tábuas, da clarabóia e das paredes difusas, nas nunca-existências corpóreas da sua poesia. E de corpo deitado contra o envernizado velho, sem sexo, abria os braços desenhando vitrúvios imperfeitos, num sem-asas de ser etéreo.
Olhava lá longe a brancura cinza de um céu baço.
E lá dentro chovia como que tendo vitrais feitos homens nus em danças de tribos, que batem os pés descalços no chão e cantam em uivos de raiz humana. E bailarinas russas que arrastam as mãos pelos vidros curvos das aurículas, cansadas do peso leve das pontas.
Sentia contra-pesos de pele-chão nas batidas cardíacas ritmadas, bebia cada grama de peso deixada ao acto de se deitar.
Imersos em luz azulada de fim de sonhos, os circos diários, as malas cheias de selos falhados, os charriots de identidades, as mortalhas de enrolar imposições, os isqueiros de acender expectativas e revoltas, e os filtros de calar versos, esperavam inertes num aquário embriagado de latências exigidas ao peso de pôr o "sobre" das bocas do mundo tanto acima do "viver".
Os olhos trémulos de espelhar a chuva azul fitavam os nuncas que queria ver acontecidos, desvanecendo em horizontes tingidos de amargo.
Sem bater à porta, pediu para entrar um par de mãos sem luvas. Outros dois olhos trémulos, talvez um espelho, vieram pé-ante-pé como quem voa. Pousou outros tantos circos, talvez mais, outras tantas malas e charriots e mortalhas e isqueiros e mais filtros. Encostou-se à transparência do pequeno coração como um gato aninhado. E sob a luz azulada de fim de sonhos, estendeu as mãos sinceras, escolheu uns dos tantos óculos tímidos, tirou com toda a graça, da enorme pilha, um dos chapéus de nunca usar, e, pousando-o como uma nuvem de afectos sobre a cabeça, procedeu a deitar-se também e fez vitrúvios imperfeitos desdenhando contra-tempos, sem que tempo algum houvesse, viesse haver, ou tivesse já havido, pois o todo estava ali, onde chovia, assim: círculo.

Mãos-esconderijos

O par de mãos ligeiramente salpicadas pela idade escondia o nervoso miudinho constante de ser bomba-relógio por condição, muitas vezes apertavam-se, contorciam-se, prendiam os dedos com os polegares dobrados sobre eles, como quem roda anéis imaginários sobre os dedos carentes. Acima delas um lábio trémulo da boca desenhada a pincel, e uns olhos inquietos condutores de altas voltagens permanentes.
Pousadas sobre os ombros as incertezas, que se deixavam descair como as mangas de uma camisola larga. E, como balões de hélio, os sonhos presos à nuca por pequenos fios de pesca guardados da infância que nunca fechou a porta.
As pálpebras contráteis anunciavam, vezes múltiplas, o riso, para os mais atentos, que lhe viam tudo nesses dois espelhos que davam choques na alma. Esse riso como uma vela-foguete a parar o tempo de quem o ouvisse, que, vezes tantas mais, saía pelo gatilho da tal bomba-relógio, feito máscara-bote de salvação do dia-a-dia que penetrasse fundo demais um peito por si só profundo em excesso, mas nem por isso menos encantador do que quando autêntico. Tratava-se só e apenas de mais um puzzle como tantos nessa complexa e infindável Da Vinciesca personalidade talhada a jogos de madeira por decifrar.
E se era por um lado um cryptex feito gente, por outro chegaria o toque certo, o tempo certo, o silêncio certo e a honestidade de uns braços abertos, para, ainda que por momentos, se tornar areia num colo com sorte, e parar o contra-tempo do relógio dessa bomba de todos os dias, no cair da máscara em que se revelassem as feridas ávidas de beijos, mas retinentes, vezes demais, dessa nudez.
Os fios de pesca dos balões de hélio eram rastilhos de acender um par de asas como havia poucos. As mãos-esconderijos eram duas portas de contrastes, desses de quem sentia demais, a quem cabiam na alma montes e vales e rios e mundos e mares, que disfarçava com velas-foguete, em tentativas-placebo de dispersar o que no fundo penetrava tão facilmente para o coração como se de tatuagens se tratasse.
Porque tinha coração de esponja. Porque era do tempo que correu depressa e chegou antes de começar, dos passos que não se apanham, dos mundos que não se acompanham, das mentes que não se sobrevoam, dos labirintos que não acabam. Porque tinha como lei de ordem o crescimento permanente, era um peixe fugidio, num ambiente-aquário onde as paredes de vidro se saltavam com um simples passo de dança.
Porque nos dedos rodava esses anéis imaginários como quem pensa nos próximos voos e não se deixa parar, e não se deixa apanhar, e não se deixa limitar, e não se deixa escrever. Porque as mãos-esconderijos eram duas portas de um vórtex que se recusava a ter fim, se recusava a ter fundo, tinha asas, balões, barbatanas, montes, vales, rios, mares, máscaras, bocas desenhadas a pincel e olhos-espelhos, e no âmago um baú do imenso contraste entre uma complexidade de camadas tantas como uma tela de séculos na memória do espírito, e uma simplicidade da infância que, mesmo com a profundidade de mil oceanos na alma, continuava a não fechar a porta.

Ecoo-me

Rangem-me as portas riscadas, postas nuas ao vazio. E ardem-me as paredes antigas de branco sujo. E colapsa-se o chão de vidro com furos de balas, por baixo dos pés descalços, com os dedos roxos enregelados que se encarquilham em câimbras involuntárias, como dez peitos a contrair-se em choros silenciosos sem ar.
Vibram-me as partes de dentro dos pulsos, com veias azuis pintadas a querer trespassar a pele, na tal comichão psicadélica de pedir lâminas quentes ou agulhas sedativas ou dentes àvidos ou unhas negras, ou os beijos que não vêem nunca.
Tenho na cabeça formigas de éter que se passeiam anestesiadas pelos corredores de morte feitos hospício, esses labirintos das ranhuras cerebrais, solo defeituoso e pútrido, cemitério de ânsias onde em dias de sol nascem flores. Estremecem-me o existir no caminhar atordoado, afogadas por debaixo da linha de água do escalpe cor de marfim partido por machados.
Sobram-me nos viscosos amontoados de massa bruta neuronal, essa elástica placenta de pensamento e criação, campas de sonhos com as pedras estaladas pelo tempo e a solidão. Nos dias de sol nascem lá flores. Nos dias de sol escondem-se os esqueletos. Nos dias de sol enfeitam-se os caixões. Nos dias de sol põem-se festões nos cedros que circundam o cemitério das ânsias, as campas dos sonhos mortos. Acendem-se as luzes e pintam-se os portões com decalques de mãos de identidades felizes.
Oitenta por cento de mim é feito de água salgada. Ensurdecem-me as âncoras que fazem o som dos búzios encostados ao ouvido onde se sonham mundos secretos quando se é criança. Perdem-se fragmentos de heteronimias com vontade própria no fundo do mar, entre os coirais ressequidos da falta de mãos lentas e a areia que flutua à espera de passos que não pisam nunca.
Emergem bolhas de pensamento gástrico à tona da boca. Rasgam a inquietude das portas, das paredes, do chão de vidro, dos dez corações. Percorre a mão devagar as arestas de madeira sem que a controle.Ganham os dedos energia espástica. Respiro sem me encontrar. Ecoo-me.

Carta à mulher que eu amo:

Nunca soube como te consigo descobrir em tantos corpos, tantos passos diferentes, tantos tardes demais. Mulher é uma desconstrução, tu és um conceito volátil, como a palavra Deus. Nunca entendi como consegui apaixonar-me por um denominador comum a um punhado de gente talhada a pó de ouro. Talvez um dia ganhes corpo em alguém que queira ficar.
Não sei porque andamos sempre desencontradas. Nunca soube porque te encontro sempre nas pessoas onde nunca pode ser. Talvez um dia ganhes um rosto definitivo. Talvez um dia me batas à porta e possas, possamos, ser.
Talvez um dia ganhes um nome que não venha tirar-me o ar dos pulmões e secar-me à força as lágrimas dos olhos. Talvez um dia sejas feita do tempo certo e não tenhas medo.
Se vieres, espero que saibas que te amo há muito tempo, como achava que só se amava nos filmes e que não podia ser. Espero que perdoes as outras pessoas onde te encontrei por me terem feito fechar a porta ao amor, elas não têm culpa. Tinham outras idades, outras vidas, outros voos e outros receios.
Se vieres, espero que tenhas paciência para esperar que abra a porta outra vez. Não foi fácil amar-te em tantas formas, com a idade que tenho a mais do que o corpo, e vir sempre no tempo errado. Não foi fácil teres tanto para resultar e ter que te deixar passar entre os dedos, como se não te visse o medo nuns olhos, e noutros as asas grandes de mais para mim.
Talvez um dia me batas à porta e saibas que esperava há tanto tempo por ti derradeira… E que vejas que em cada cicatriz que trago no peito cresceu uma flor. As versões impossíveis de ti vão aprendendo a florescer, uma vez quebrado o cimento de estar sozinha. Quero que beijes quantas flores fizeste vir ao mundo por teres dado errado e que deites a cabeça no meu peito deixado à lua e possamos ficar assim, sem dizer nada, só porque ambas sabemos que foi desta que deu certo.
Talvez um dia me encontres. Espero não ter amargado. Desculpa se encontrares mais camadas por abrir do que as que devia ter. Amar-te em nomes errados custa, mas não morre. E a parte mais bonita é essa. Não vou amar-te desta vez, porque te amo ainda de todas as que não deram também. Guardo as chaves das portas fechadas e as flores desses desgostos. E por um baú cheio de tudo isso, julgo que só te saberei amar melhor.
Foram os nomes deitados ao vento onde te encontrei que me fizeram poeta (espero que saibas que o meu coração, como o teu, não tem género). E se me encontrares a tempo e quiseres ficar, obrigada por me desbravares.

Amo-te em quantos sempres quebradiços te encontrar.

Gato preto

Pelos cantos da casa acumulava-se o tempo empilhado em caixas de cartão, à espera de ser novo. Um ciclorama de dias passava imparável pela janela das águas furtadas de onde se contemplava a vida. Os conceitos soavam muitas vezes ocos, como quando se repete muitas vezes a mesma palavra até que perca o sentido.
E havia desejos binários, tanto de passar a vida à frente num botão de um comando e ver o que o futuro reserva, como de voltar atrás e viver uma vez mais, do zero, em múltiplas existências epistemológicas, e testar qual dos "ses" daria um melhor resultado.
Fazia eco a palavra amigo, a palavra amor, o nunca e o para sempre. Pouco mais queriam dizer que a fugacidade de uma esperança cristalizada, sujeita à força das marés que a quisessem levar.
Pensava-se já saber, pensava-se já ter erguido o castelo de cartas, com a lucidez no entanto de saber pouco duradoura essa segurança de tectos de vidro. Como quem se atira de um penhasco à espera que seja desta que ganha asas, com a noção de fundo, no entanto, que vai bater no fundo, só talvez um pouco menos estatelado que das quedas anteriores, pois que enquanto as asas tardam em chegar, cresce o jeito para um cair mais atenuado.
Porque não se sabia outro modo de vida do que esse de se atirar a penhascos, pois nada mais mantinha no tempo o movimento se não esse mudar de espaço à força, rasgando limites à procura de que algum dia algum lugar resultasse, como duas variáveis frágeis de uma equação nuclear para ser feliz.
Revelava-se a única constante essa inquietude da brancura de um papel por onde drenar os mundos tornados em texto. Seria o único amigo e amor, o único nunca e para sempre que não estremecia no soprar do vento.
Nessa alma de gato preto por ruas empedradas, onde sabia que as suposições assumiam o propósito de trocar as voltas, onde o que se julgava de pouco mais servia se não para tirar o chão, passava, de passos esguios, de olhos cheios, de cabeça à lua como quem deve ao passado somente a hipótese de futuro, de certezas poucas com engrenagens à roda, como quem já não espera por terra firme, mas de abandono certo, esse da teimosia de, mesmo que só, mesmo que de sempres amputados e nuncas surpreendentes, ser poeta.

Canto amorfo

Tenho o corpo feito de tábuas de pinho. Navega sobre o sal dos dias feito caixa forte. Tenho o interior das veias talhado como um caixão. Faço das horas vagas noites em que não sei o que sou. Rezo para não ter que ligar o interruptor de viver. Tenho a pele a fazer barulho de madeira oca.
Tenho o peito feito de vidro rasgado. Tenho um coração de balas e uns dedos de promessas e um pescoço de beijos que ficam sempre por dar. Tenho uns ombros de abraços que ficam pelo acender da vontade, sem nunca pegarem fogo.
Apago a luz à força do sótão psíquico, porque é como canto escuro e quieto, como espaço desfocado e inexplorado e como dimensão perdida que, não sou mais, porque não sei que seja, mas sou melhor, ou ainda que não seja, tem mais paladar a tentativa.
Tenho as asas feitas de pó e a boca de suspiros. Tenho os pés feitos de mármore partido e as pernas de revolta. Tenho a carne feita de frustração. Tenho a raiz feita de inconformismos perpétuos. Tenho a cabeça feita de mundos.
Tenho o canto amorfo, onde não sei nada sobre coisa nenhuma, cheio de sonhos espalhados pelo chão e colados nas paredes e a abarrotar das gavetas desarrumadas de sentido.
Tenho a fogueira dos olhos feita de dúvidas e desejos. Feita de porquês e medos. De pesadelos e de poesia. De fantasmas e de persistência. Tenho o norte feito da inconsistência de acreditar no éter intermitente da felicidade como modo de vida.
Tenho o corpo feito de tábuas de pinho. E um guarda-fatos velho, cheio de cabides com reinvenções de mim.